Hoje fui à casa de tia Teté. Cheguei lá as cinco e lá estava ela, gritando com os moleques. Pobres.Um condomínio de quatro prédios, velhos e sempre reformados. Cheirinho de lavando, tudo parecendo intacto.Pedra sobre pedra, lima sobre lima, tinta sobre tinta; Lizinha. Tia Teté abriu a porta, de chinelos; os mesmo, calça moletom preta e uma blusa de algodão azul, com florzinhas brancas..fina, velha, De ficar em casa. Oi menina, ela me disse. Tia Teté arrasta os pés, é magra, magrinha, pequenininha, meio corcunda, mais só depois de agora. Agora ela está velha. Ela fez uma tatuagem nas sobrancelhas falhadas; tem as sobrancelhas negras, Agora. Tomamos café em copos descartáveis e pães descartáveis. Tia Teté mora sozinha, a casa é um brinco. A mesa da copa, que fica dentro da sala, que fica dentro dos quartos, e assim na sacada; é coberta de três toalhas de plástico. Tia Teté toma seu chá; fazendo barulho, soprando as dentaduras. Seu copo de requeijão, transbordando chá de erva cidreira, fica dentro de um pote velho de margarina, que fica sobre a terceira toalha de plástico, que fica sobre a segunda, e esta sobre a primeira. Teté esbugalha os olho enquanto fala, treme as sobrancelhas. Encena, irrita, se irrita. Fala bem e mal dos outros, e termina a conversa na janela: Cala boca filha da Puta! Vai fazer zona na casa de sua mãe, filho de uma puta!Morde a língua entre os dentes postiços. Contorce a língua. Espreme. Eu ligo a tevê. Vinte minutos de novela, a tevê pode esquentar, diz ela. O aparelho de tevê deve ter nascido a uns vinte e muitos anos, assim como o espremedor de laranjas e o jogo de panelas, todos guardados devidamente dentro de suas respectivas caixas e sacolas, dentro do armário menor do quarto de Marquinho. Marquinho morreu com trinta e dois anos, junto à mulher e o menino. O menino tinha dezesseis semanas de gestação, Claudia tinha trinta anos. Ai Tia, se eu pudesse trocar de lugar com você. Você terminaria com a minha vida rápido, sem dó, junto e em prol dessas manias e doenças, desse jeito espiritual de ser sovina. Eu, de você, terminaria na Sua. Sozinha, limpa, e sem esses meus dentes.