domingo, janeiro 21, 2007

"Aquelas infinitudes do instante explícitas no horizontal da terra deixam as coisas tão inconstantes; aflitas, sem ter onde palpar. Aquele sentimento feliz, de querer se entregar a qualquer divindade. Mais uma vez, sem ter certezas, e grata com isso. Christine não é do tipo Carpe Dien de menina, sustenta-se na felicidade prolongada; calcula a vida, mas resplandece no sabor das pequenisses encafeinada do cotidiano. Não ousa, em ações grandiosas, construtivas ou desconcertantes, apenas faz osmose de bonitas molduras. Absorve a respiração de terceiros, compondo-se assim. "

domingo, janeiro 14, 2007


-Tchau, Boa noite. Saiu da sala de aula. O piso frio de Pinhol em embaixo de seu tênis e de seus casacos. Branco com cheiro de formol. Coca-cola com açúcar e o cérebro vazio de tanto querer pensar.-Chega! O Ônibus espera a bunda gorda da senhora levantar-se, alavancar-se; suspender-se. Suspenso. A Cabeça,minha cabeça vagueia em algum lugar. Meus pulsos doem. Ele me machucou ontem na lavanderia. Eu nunca faria aquilo. Mas eu lhe quero tão bem...acho isso doença. Estou doente. Minha vagina doe de seus dedos e de sua curiosidade. Ele está inseguro. Não agüento mais ser revistada devorada , de dentro pra fora, de dentro pra fora.
A casa está em desordem. Guardada pelas janelas fechadas numa tarde inteira. O cheiro do tempo tostado no sol de Recife. Aquecido, cozido. Ela abriu as janelas e deu até pra sentir o calor evacuar enquanto a brisa fina entrava. Felipe vê tevê no quarto.-Amor, como foi de trabalho? Ela o olha de beira e responde feliz pelo seu descanso. Nada aconteceu. Nem mais se sentiu inchada por entre ela.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Hoje fui à casa de tia Teté. Cheguei lá as cinco e lá estava ela, gritando com os moleques. Pobres.Um condomínio de quatro prédios, velhos e sempre reformados. Cheirinho de lavando, tudo parecendo intacto.Pedra sobre pedra, lima sobre lima, tinta sobre tinta; Lizinha. Tia Teté abriu a porta, de chinelos; os mesmo, calça moletom preta e uma blusa de algodão azul, com florzinhas brancas..fina, velha, De ficar em casa. Oi menina, ela me disse. Tia Teté arrasta os pés, é magra, magrinha, pequenininha, meio corcunda, mais só depois de agora. Agora ela está velha. Ela fez uma tatuagem nas sobrancelhas falhadas; tem as sobrancelhas negras, Agora. Tomamos café em copos descartáveis e pães descartáveis. Tia Teté mora sozinha, a casa é um brinco. A mesa da copa, que fica dentro da sala, que fica dentro dos quartos, e assim na sacada; é coberta de três toalhas de plástico. Tia Teté toma seu chá; fazendo barulho, soprando as dentaduras. Seu copo de requeijão, transbordando chá de erva cidreira, fica dentro de um pote velho de margarina, que fica sobre a terceira toalha de plástico, que fica sobre a segunda, e esta sobre a primeira. Teté esbugalha os olho enquanto fala, treme as sobrancelhas. Encena, irrita, se irrita. Fala bem e mal dos outros, e termina a conversa na janela: Cala boca filha da Puta! Vai fazer zona na casa de sua mãe, filho de uma puta!Morde a língua entre os dentes postiços. Contorce a língua. Espreme. Eu ligo a tevê. Vinte minutos de novela, a tevê pode esquentar, diz ela. O aparelho de tevê deve ter nascido a uns vinte e muitos anos, assim como o espremedor de laranjas e o jogo de panelas, todos guardados devidamente dentro de suas respectivas caixas e sacolas, dentro do armário menor do quarto de Marquinho. Marquinho morreu com trinta e dois anos, junto à mulher e o menino. O menino tinha dezesseis semanas de gestação, Claudia tinha trinta anos. Ai Tia, se eu pudesse trocar de lugar com você. Você terminaria com a minha vida rápido, sem dó, junto e em prol dessas manias e doenças, desse jeito espiritual de ser sovina. Eu, de você, terminaria na Sua. Sozinha, limpa, e sem esses meus dentes.